LACAIO (Por Ivon Rabêlo)

O pai dela era. perfeito fantoche nas mãos das suas irmãs de carne. mais jovens do que ela, eram presas, desde muito atadas, ao mesmo fio umbilical da eternidade, quando se perceberam disputando beleza e segurança na avareza de sentimentos e fraternidade ausentes naquele covil. um inferno inteiro é muito gélido para descrever a candura de sua carência, mas apodrecer era estar convicta de tudo que lhe fazia falta, suportar calada, aquiescer contida e regurgitar o fel. aprendeu depressa a regra: sem exceções, largar o copo na hora exata e, sutilmente, cantarolar o hino dos senhores da guerra, a engrossar o coro dos contentes.

Chegando alegre das compras, depositou as sacolas em cima da mesa e esvaziou os bolsos. correu à geladeira e verificou se haveria espaço suficiente para mais garrafas. havia também o peixe de ontem, as terrinas com gelo e o frio de sempre. abriu espaço entre tudo e enfiou lá dentro os artifícios de sua morte. correu à vitrola e escolheu aquele de capa cinza dentre os vários discos de seu pai. pôs a tocar e sentou-se exaurida e trêmula no sofá, a ouvir os arranhões que faziam pulular seu peito e lamentar a interrupção de grandes trechos na música que a compelia à angústia, ao sentimento de impermanência e solidão, embora a casa já cheia de barulhos e correrias.

Era Natal. inúmeras crianças cacarejavam abusivamente, sobrinhos em corridas bruscas pela casa. as mães, solteiras irmãs suas vestidas de abandono, confabulavam na cozinha, discutindo sempre em voz alta onde deveriam servir os doces e os salgados, os quentes e os gelados, os líquidos e os sólidos, os moles e os brutos, os novos e os velhos, os corpos e os restos, os desejos e os pecados.

Nesta azáfama, Mariana, a primogênita, ergueu o copo e entregou outro ao pai, para brindarem juntos e sozinhos o instante de contentamento que sentiam em serem filha e pai, em terem laços e família, ouvindo juntos a voz grave do cantor que idolatravam unidos. a mãe nada falava, envolta na dança da época, retirada de sua cadeira amarga e convidada a bailar pelo corredor da casa, iluminada por rasgos de luz ora amarelos, ora verdes como seus olhos, ora azuis como seu passado, ora vermelhos como o sangue do Cristo, ora violáceos como o vinho que todas bebiam.

e bêbadas, todas, acusaram a filha e irmã de ladra, esquiva ladina a roubar-lhes a atenção do pai, o dominante e dominado, lacaio de suas próprias crias e companheiras, atiçando-lhe no espírito insano a desavença que se insurgia só, em instantes de arrebatamento ébrio. exausto, ele dirigiu-se ao quarto e quedou-se a ouvir os rumores da discórdia, do pleito acusatório que o faria engatilhar a arma e mirar a fronte entorpecida de sua filha mais velha.

[ao dormir, pensava ela, poderia reunir as imagens e conhecer os segredos que encobrem as honras manchadas, as febres intermitentes provocadas pelo incesto, as invejas despertadas pela humildade e clareza leves de um caráter reto. nesta noite sonharia, apesar de assolada por vívida dúvida em estar ou não atenta aos fatos que desencadearam o ato]

pressionada, ela negou inocência. inconformadas, suas irmãs verteram veneno em doses mortíferas. irracional, seu pai disparou a arma. um tiro e nada mais. nem mesmo o som do silêncio.

a música das esferas de chumbo tilintou em sua caixa craniana e ela adormeceu. nessa hora, um menino nascia em cama de palha seca. outras crianças gritavam assustadas e as mães calavam. a voz grave do cantor era interrompida há tempos pela agulha da vitrola, aos solavancos. os vizinhos nada ouviram e ela adormecera, após largar o corpo na hora exata e, precisamente contida, engrossar altiva o coro dos descontentes, ao murmurar contrita o hino dos senhores da guerra.



Ivon Rabêlo (1972) nasceu e vive em Sertânia/PE. Mestre em Literatura e Interculturalidade pela UEPB/Campina Grande-PB, atualmente é Professor de Língua portuguesa na Escola Técnica Arlindo Ferreira dos Santos em Sertânia.

1 comentário

V. em 6 de abril de 2011 17:23

obrigado pela menção, querido amigo! sempre uma honra ser lembrado por você! abraços!

 
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