OS GRÊMIOS ESTUDANTIS

Por Ésio Rafael.

 

Um dos maiores estragos causados pela ditadura militar foi, sem sombra de dúvidas, o desmantelo e a conseqüente deteriração do movimento estudantil. Pernambuco tinha um movimento estudantil secundarista, entre as décadas de 60, e início de 70, com padrão de consciência, e organização da maior importância. Era um orgulho para todos nós, pertencermos à UNE (UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES). Porque, a UNE era representativa, lutava e apoiava o movimento estudantil, em praticamente, todos os Estados da Nação. Quando a UNE, era UNE de verdade, o que pouco ou quase nada tem a ver com os dias atuais, onde a Instituição está repleta de “carreiristas” binitinhos, atrelados aos partidos políticos ou as verbas do governo Federal. O resultado está em nossas caras, não nas nossas, (cinquentões, e sessentões), mas, nas dos nossos descendentes que palidamente tentam soerguer os Grêmios Estudantis mas, sem o apoio necessário por parte dos dirigentes, “caras pintadas”, filiados à UNE, que não aparecem nas escolas para pelo menos dizer ao pessoal, a importância de um grêmio estudantil, a história política do movimento, a dignidade dos militantes, que foram perseguidos, presos, torturados e mortos pela repressão. E o que é pior, é que os estudantes ainda encaram um grêmio nas escolas( vejam que absurdo), não são vistos com bons olhos pelos diretores atuais. Atuais “sim sinhor”. Pois vou dar dois exemplos acontecidos comigo mesmo. Fui até Caruaru, junto à minha família, e lá me desloquei até a escola Estadual, onde estudei, no sentido de retroceder na história, e catar notícias do grêmio estudantil, onde tive a honra de ser o seu primeiro Presidente. Me apresentei a diretora, ela me recebeu muito bem. Claro, perguntei pelo grêmio. Ela no percurso da conversa disse:- È preciso cuidado com os “gremistas”, eles são anarquistas. Isso, em Caruaru. Mas, vamos ao Recife. Nas primeiras reuniões desse ano, acredito que a Secretaria de Educação, deve ter orientado os diretores das escolas, para facilitarem a implementação dos seus referidos , grêmios estudantis. A diretora, depois dos informes regulamentares, disse que dentre as ações do ano letivo, estaria o “apoio ao grêmio”. E, adiantou:- Eu gostaria que a Professora fulana de tal, que é quem me ajuda nos eventos da escola, que ela fique junto a esse pessoal do grêmio, vocês sabem muito bem como é esse pessoal. 

Coitados dos gremistas! Agora vejam a mentalidade desses dirigentes atuais das nossas escolas Públicas. Diferem dos diretores da época? Não são todos. È lógico. Mas, como dizia, Wlisses Guimarães: - São os destroços da ditadura. Pergunta-se: cadê o pessoal a:- UBES, que não aparece nas escolas para orientar os estudantes? Eu fiz essa pergunta para os alunos da escola onde trabalho. Eles responderam que não têm assistência, orientação, a não ser uma vez ou outra, quando são chamados à participarem de algum comício de campanha partidária.

Os Grêmios Estudantis funcionavam como um suporte valoroso na formação intelectual extra classe, ao abrir caminhos que vieram a fortalecer a formação política, literária, musical dos estudantes. Da formação de caráter, da visibilidade do mundo. Era lá que se lia um bom livro, político, social, ou um romance de responsa. Era lá que se ouvia música de artistas comprometidos com a sua cidade, com o seu Estado, com a sua Nação. 

Esse pessoal da:- UBES, poderia muito bem, chegar junto. Explicar para os jovens, por exemplo o que foram os famigerados:- 477, 222? Como realizar a eleição de Presidente de grêmios. Vejam se não seria salutar dizer para eles, o que foi a “passeata dos cem mil? Sabe por que? Porque diretor de colégio pouco está se lixando para um movimento estudantil consciente, responsável, digno. Mirem-se no exemplo de Caruaru, e Recife. Isso não é parâmetro, mas, assusta, meu véi... de hoje, por exemplo: O que significaram, dos estudantes que, mesmo antes de ingressarem em uma Faculdade, tinham noções preliminares dos seus direitos e obrigações. 

Com o golpe de 64, esse movimento foi abafado pelos Atos Institucionais 477 e 222, ambos, caçadores dos direitos sagrados e legítimos dos estudantes. 

Foram atos brutais de conseqüências graves até hoje irreparáveis. Ninguém fala nisso, parece que nunca aconteceu. As informações enfocadas em livros, jornais e revistas não tiveram o mesmo tratamento, a mesma atenção dada aos presos políticos, que tiveram seus direitos cassados através do, AI-5. Há políticos que, pelo fato de terem levado uma mãozada no pé do ouvido, ainda hoje tiram proveito desse passado explorando-o em campanhas políticas. Mas, quem se lembra de Odijas de Carvalho, estudante da Universidade Federal Rural de Pernambuco, morto pela repressão? Inesquecíveis dias para a estudantada da época. A infiltração dos chamados “dedo duro”, a serviço da ditadura, no sentido de observar focos e células comunistas, de acordo com a linguagem dos militares: Escolas, Faculdades, salas de aulas, pensionato, qualquer lugar que superasse o contingente de quatro pessoas era considerado suspeito, um estilo de época na linguagem literária.

Agora sim, incluindo os Diretórios Acadêmicos das Universidades, junto aos Grêmios estudantis, era lá onde os estudantes liam bons livros, boas revistas escutavam uma boa música, longe das fatídicas salas de aulas. Era lá onde se discutia política e, supostamente, se traçava um destino mais digno para o futuro da Nação, longe das botas, das esporas e das cadeiras curriculares impostas pela repressão. 

Os Diretórios Acadêmicos, os Grêmios Estudantis de hoje e o movimento dos estudantes não são mais os mesmos. Evidente que os tempos mudaram, todavia, deve-se uma explicação em nome de um passado de honra e de história dos movimentos estudantis do nosso País. Os líderes cheiram a carreiristas. Não têm história. Em 68, os estudantes enfrentavam os cavalos da Polícia jogando bolas de ‘gude’ na pista para que os mesmos escorregassem, ou derramavam óleo queimado para que os pneus dos carros dos agressores deslizassem. Tudo por uma causa, pela defesa dos seus direitos, por um ensino de qualidade, sem necessariamente pensar em carreira política, o que não deu muito certo. 

Devagar, quase parando, os estudantes retomam o movimento Gremista, praticamente desamparados, sem orientação. O pessoal que os orienta, tem outra visão, o que é normal, afinal eles vivem em outra sintonia. Mas, e a consciência política, histórica, fica por onde? E o pior de tudo, é que as cabeças dos diretores de escola( deixe que eu diga, nem todos), porque se não o bicho pega. Então vejamos: conversei com uma diretora de colégio público, recentemente em Caruaru. Quase morro de desgosto. Perguntei se no colégio ainda havia o grêmio. Ela me deu como resposta:- Existe, mas, são uns anarquistas, é preciso ter cuidado. Algum problema com isso? Não, pois aqui em pleno Recife, A diretora da escola onde trabalho, na primeira reunião quando de volta das férias, lendo a pauta, certamente, orientada pela, GRE, falou na volta do grêmio estudantil, e, terminou dizendo:- È preciso ter cuidado com esse povo. Convocou logo, uma professora dedicada que gosta de organizar Eventos na escola, para colar nos gremistas. Pode, depois de tanto tempo? Agora, caros leitores, desse tipo de gestor no ensino oficial, “ta assim oh” Ela, falou dentre outros informes(orientada pela – GERE( que todo dia muda de nome), diretora, Na Universidade Rural de Pernambuco, o Diretório Central e os Diretórios Acadêmicos, viraram fantasmas, onde reinam capim, desolação e a sombra de um passado brilhante de luta e coragem. 

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