Quais são mesmo os porcos nesta história?

> Quais são mesmo os porcos nesta história?
> ( Matéria enviada por José Nêumanne)
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> Até agora Dilma demitiu todos os subordinados sobre os quais imprensa
> lançou alguma suspeita
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> Antônio Palocci não era um burocrata qualquer quando a presidente
> Dilma Rousseff dispôs de seu emprego na alta cúpula do governo
> federal. Ele tinha sido o avalista do padrinho e ex-chefe dela Luiz
> Inácio Lula da Silva no crédito de confiança que a classe média deu à
> adesão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao rigor fiscal e à
> estabilidade da moeda. Isso o credenciou a se tornar o todo-poderoso
> ministro da Fazenda do primeiro governo do patriarca. E foi com essa
> missão que também costurou o apoio da burguesia nacional à candidatura
> de Dilma à sucessão presidencial, reunindo cacife para coordenar a
> equipe de transição e ocupar a chefia da Casa Civil.
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> Tampouco o sanitarista de Ribeirão Preto era um “ficha-limpa” quando,
> empossada na Presidência, Dilma recorreu ao seu talento de
> articulador. Pois Sua Excelência já havia caído do alto, envolvido num
> escândalo – a frequência habitual de uma mansão suspeita – e numa
> violência contra a cidadania: a violação do sigilo bancário do caseiro
> Francenildo Santos Costa. A revelação pela Folha de S.Paulo da posse
> de um apartamento de R$ 6,6 milhões e da multiplicação por 20 do
> patrimônio acumulado como “consultor” enquanto ocupava uma modesta e
> quase anônima carreira na Câmara dos Deputados indicava uma óbvia
> reincidência. E pela segunda vez o condestável desabou do topo.
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> Na chefia da Casa Civil, para a qual nomeou Palocci, Dilma havia
> substituído José Dirceu, acusado de chefiar uma quadrilha em processo
> que tramita nos escaninhos do Supremo Tribunal Federal (STF). No posto
> conviveu – segundo consta, às turras – com o então ministro dos
> Transportes, Alfredo Nascimento, senhor do castelo do Partido da
> República (PR), da base de apoio parlamentar do governo. Em nome da
> “governabilidade”, ela lhe devolveu o posto e foi levada a dele
> afastá-lo depois de o referido ter protagonizado caso de corrupção
> denunciado pela revista Veja. E nas páginas desse semanário o
> diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de
> Transportes (Dnit), José Luiz Pagot, mereceu idêntico tratamento.
> Antes de ser demitido, como chegou a ser anunciado, contudo, Pagot
> tirou férias, das quais se afastou para elogiar no Congresso o zelo da
> comandante e o comportamento de seu futuro chefe, na esperança de ter
> a boquinha de volta.
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> Voltará? É aí que está o busílis. Dilma jura que não. Mas Paulo Sérgio
> Passos garante que nada há que pese contra o retorno do antigo
> companheiro de cúpula no Ministério dos Transportes. O benefício da
> dúvida pode favorecer Dilma quanto à atuação de todos esses senhores
> ao longo do mandato de Lula, em que chefiou a Casa Civil com fama de
> “gerentona” dura e de trato pessoal pouco delicado. Dela, porém, não
> se noticiou nenhuma reação pública contra a conduta dos dois
> ministros, o que saiu e o que o substituiu. Se se furtou no Ministério
> dos Transportes, é de imaginar que ela confiasse que Alfredo não sabia
> e Paulo, muito menos. Se ela soubesse, como justificar que os nomeasse
> para o primeiro escalão do governo ao qual foi içada pela maioria dos
> eleitores?
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> A guilhotina continuou – e, ao que parece, continuará – funcionando no
> prédio que os aliados do PR ocupam na Esplanada dos Ministérios. Rolou
> a cabeça de José Henrique Sadok de Sá, que ostentava duas coroas: de
> diretor executivo e diretor-geral interino nas “férias” de Pagot. Sá
> foi denunciado por favorecimento a uma empresa da mulher pelos
> repórteres deste Estado. No rastro sangrento dessa execução, já foram
> previamente anunciadas as demissões do petista Hideraldo Caron, também
> do Dnit, e de Felipe Sanches, presidente interino da empresa estatal
> suspeita de figurar no lamaçal, a Valec - Engenharia, Construções e
> Engenharia S. A.
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> No ostensivo loteamento político realizado pelo governo federal,
> Palocci e Nascimento, os expoentes dos denunciados que caíram em
> desgraça sob Dilma, têm em comum a proteção do paraninfo dela, seu
> antecessor Lula. Este chegou a se deslocar, sem ser chamado, de seu
> retiro em São Bernardo do Campo para o Planalto Central para tentar
> resgatar o então chefe da Casa Civil. Em vão! O malogro no intento não
> o impediu, contudo, de deitar falação contra o que ele e os soldados
> dos blogs financiados de alguma forma pelo governo e pelo PT chamam de
> “Partido da Imprensa Golpista” (PIG, em inglês porco). Na troca de
> presidentes da União Nacional dos Estudantes (UNE) em congresso
> bancado por empresas públicas, o ex disse que os grandes jornais de
> São Paulo nem chegam ao ABC e que a população sabe que não precisa
> mais de “intermediários” para ter acesso à informação.
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> Por causa da enxúndia de notícias disponíveis, talvez ele tenha alguma
> razão. O afastamento de alguns de seus amiguinhos mais chegados da
> cúpula federal, contudo, demonstrou que sua sucessora tem precisado –
> e muito – dos meios de comunicação para saber o que alguns de seus
> subordinados fazem “debaixo dos panos”, lembrando aquele sucesso
> junino de Antônio Barros e Cecéu. A exemplo das cobaias de Pavlov que
> salivavam ao toque de sinetas, a presidente tem demitido regularmente
> todos os auxiliares cujas atividades heterodoxas têm sido reveladas
> por órgãos de comunicação. Até agora nenhum denunciado escapou da
> degola. E até agora ninguém foi degolado antes de vir a ser denunciado
> no noticiário.
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> Noves fora a mágoa de Lula por estar perdendo poder no governo da
> protegida, o que ele omitiu na meia-verdade aplaudida por um público
> cuja simpatia foi patrocinada revela uma trágica e perigosa distorção
> da democracia brasileira atual: o Poder Executivo não dispõe de
> informações para sanear a máquina pública. Ou, se dispõe, não tem
> como, ou não quer, fazer a faxina que tais informações preceituam.
> Dilma age sob pressão da opinião pública, que, à falta de uma oposição
> de respeito, só conta mesmo é com a liberdade de informação e opinião
> como aliada.
> ( Matéria enviada por José Nêumanne)
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.
>
> (Publicado na Pág. A2 do Estado de S. Paulo na quarta-feira 20 de julho de 2011)

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