UM GOLE DE JIM

Há exatos 40 anos, o rock e a música pop perdiam um dos seus grandes símbolos. No dia 3 de julho de 1971, James Douglas Morrison, ou simplesmente Jim Morrison, foi encontrado morto na banheira de sua residência em Paris. Considerado um grande poeta do rock na época, o lendário vocalista e letrista do The Doors,nessa metamorfose pública, cruzou o Atlântico e fez de Paris o seu último endereço. A sua morte ficou envolta em mistério. O atestado de óbito revelou problemas cardíacos. No entanto,outras versões falam de uma overdose, em um bar da cidade, que o deixou em coma e,nesse estado, fora levado para casa. Essa morte mal explicada deu origem a lendas acerca do xamã dos anos 1960. Entre elas, encontra-se a seguinte:[...] Jim teria sido visto, bem vivo, em qualquer parte do mundo. Este rumor fez-se sentir vivamente em New Orleans onde um romance bizarro foi mesmo (mal) escrito sob o seu nome. Reaparece sob a forma de uma espécie de Banqueiro-hippy e o seu livro foi publicado por uma filial do Bank of America... Certamente que ele teria apreciado esta última homenagem do absurdo americano.

Jim Morrison nasceu em 08 de dezembro de 1943, em Melbourne, Flórida.Filho de um oficial de alta patente na marinha americana, foi, na opinião do produtor musical Paul Rothchild, um intelectual renascentista à sua maneira. Como vocalista do conjunto musical The Doors, construiu uma trajetória singular e, fundamentalmente, deu ao cenário do rock uma qualidade teatral.

As apresentações do The Doors transcendiam a expectativa de um mero entretenimento musical. Por seu comportamento, opiniões e idéias, aliados a uma voz personalíssima e uma beleza incontestes, Morrison tornou-se figura emblemática de um tempo em que se acreditou nas infinitas possibilidades de viver: não fazemos a própria vida, ela mesma se faz.

Difícil encontrar respostas que dêem conta da complexidade que envolve o homem, o cantor e poeta Jim Morrison. Fruto de sua época e de suas angústias, ele se envolveu profundamente com as questões de seu tempo: vivemos em uma época em que para ser superstar é preciso ser político ou assassino. Leitor ávido, devorou a produção dos poetas beats e ficou fascinado por Dean, o herói sem destino de On the road de Jack Kerouac. De acordo com seus biógrafos (Jerry Hopkins e Daniel Sugerman) os livros lidos por Jim revelam muito de seu universo cultural e de suas expectativas para com o

mundo. Além dos poetas beats, Morrison sorveu a poesia de Rimbaud, os escritos de Norman O. Brown, Honoré de Balzac, Jean Cocteau e Molière, juntamente com a produção dos filósofos existencialistas franceses. Entretanto, foi a obra do poeta filósofo Friedrich Nietzsche, em particular, as teorias sobre estética, moralidade e

dualidade apolínea-dionisíaca que o marcaram definitivamente.

Em seu último ano de colégio, Jim começou a guardar os seus apontamentos, e

a noção romântica de poesia tornou-se mais presente em sua maneira de compreender o mundo.



Jim Morrison entusiasmou-se com a proposta de formar uma banda de Rock, mudou-se para a casa de Manzarek e começaram a trabalhar. Mais à frente, conheceram John Densmore e Robby Krieger. Surgiu, assim, The Doors. O nome escolhido para o grupo revelava outra grande influência de Morrison, os românticos ingleses, em especial Willian Blake, que por meio de um livro de Aldous Huxley (As Portas da Percepção), inspirou o nome do conjunto. Morrison também foi amigo no curso de cinema da UCLA do contemporâneo, Francis Ford Coppola, que significativamente realizou uma das mais belas homenagens a Morrison e ao The Doors, ao iniciar o seu notável Apocalypse Now(Considerado o maior filme de Guerra de todos os tempos) com imagens de uma floresta incendiada ao som de The End.



É o fim, amigo querido,

é o fim, amigo único, o fim

dos planos que forjamos, o fim

de tudo o que era firme, o fim

sem apelo ou surpresa, o fim.

Nunca mais te olharei nos olhos.

Vê se imaginas o que vai ser de nós,

ilimitados e libertos,

desesperadamente necessitados da mão dum estranho

num mundo desesperado?

Perdidos num romano deserto de mágoas,

com todas as crianças atacadas pela loucura,

todas as crianças atacadas pela loucura,

à espera da chuva de Verão.

É perigoso passar ao pé da cidade,

segue a direito pela estrada real.

Cenas mágicas dentro da mina de ouro;

segue pela estrada do oeste, amor.

[...]

É o fim, amigo querido,

é o fim, amigo único, o fim.

Custa-me deixar-te, mas

nunca irás para onde eu for.

O fim da risada e das doces mentiras,

o fim das noites em que fizemos por morrer,

é o fim.



O início da década de 1970 marcou a presença do poeta Jim Morrison no cenário cultural norte-americano. Ele fez de seu tempo e da história a matéria-prima de sua poesia.



Sabem do febril progresso

sob as estrelas?

Sabem que nós existimos?

Esqueceram porventura as

chaves do Reino?

Já foram dados à luz

& estão vivos?

Vamos reinventar os deuses & os mitos

das idades

Celebrar símbolos do mais fundo das antigas florestas

(Esqueceram as lições

da guerra pretérita)

[...]

Sabem que temos sido levados à

matança por almirantes plácidos

& que gordos & calmos generais se tornam

12 MORRISON, Jim. Auto-Entrevista. In: ______. Abismos (escritos inéditos). Enfim Jim Morrison,junto com John Lennon,Bob Dylan,consta com os maiores poetas do Rock...

Foi listado como o nº 4 a morrer misteriosamente, depois das mortes de Jimi Hendrix,Janis Joplin e Brian Jones, guitarrista dos Rollings Stones. Coincidentemente, todos morreram com 27 anos e em situações que deixaram algumas dúvidas até os dias de hoje.



Flávio Magalhães

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