Tucanos apanham, mas não aprendem

> Oi, boa tarde, aqui está minha diatribe da quinzena na página da
> Opinião do Estadão de amanhã
>
> Ei, PSDB, o mundo não
>
> vai acabar em três anos!
>
> José Nêumanne
>
> Eleição presidencial de 2014 está longe no tempo e também do longo
> bico dos tucanos
>
> Alguém faria um grande favor à oposição e às instituições do Estado
> Democrático de Direito no Brasil se lembrasse ao tucanato de alta
> plumagem que ainda faltam mais de três anos para a eleição
> presidencial e, antes dela, está agendada uma disputa por votos em
> todos os municípios brasileiros. Os dois principais ex-governadores do
> Brasil, o de São Paulo, José Serra, e o de Minas Gerais, Aécio Neves,
> agem como se ambos não tivessem acabado de protagonizar um dos maiores
> malogros eleitorais da História do Brasil: a derrota para uma
> adversária jejuna, desprovida de cintura e sem nenhum charme pessoal,
> dispondo apenas da alavanca do extraordinário prestígio eleitoral de
> um presidente no fim do segundo mandato. Quem perdeu foi Serra, dirão
> os adeptos de Aécio, como se este não tivesse trocado o governo de um
> Estado da importância capital que Minas Gerais sempre teve no cenário
> político nacional por um desempenho pífio e impotente num Congresso no
> qual à legenda dos dois não se atribui sequer o papel de figurante
> interpretando uma horda indígena num western spaghetti.
>
> “Se for a vontade do partido, estarei pronto para disputar com
> qualquer candidato do campo do PT, seja Lula ou Dilma”, disse o neto
> de Tancredo Neves à repórter Christiane Samarco, da sucursal deste
> Estado em Brasília. Depois da divulgação do feito espetacular da
> presidente, que ultrapassou o índice alcançado por seus dois
> popularíssimos antecessores em princípio de governo, Fernando Henrique
> Cardoso, correligionário de Aécio, e Lula da Silva, companheiro de
> Dilma, na terceira avaliação de desempenho pessoal e de governo, a
> afirmação do mineiro está mais para bravata do que para promessa. É
> claro que até 2014 muita água movimentará os moinhos eleitorais e, com
> Mantega e Tombini e sem Palocci nem Meirelles, a chefe do governo pode
> dar com seus burros nessas águas. Mas, mesmo na política, uma dama
> mais trêfega e caprichosa do que a cantada por Rossini na ópera O
> Barbeiro de Sevilha, o anúncio soa mais como bilhete de suicida do que
> como convite para festa. Será que Sua Excelência não percebeu que um
> partido incapaz de constituir uma comissão parlamentar de inquérito
> (CPI) e de aproveitar as oportunidades que o PT e seus aliados têm
> dado não terá chance de chegar ao topo?
>
> O senador das Alterosas disse que o partido dele e de Serra
> “amadureceu o suficiente para ver que, ou vamos unidos, ou não teremos
> êxito”. Bem, essa poderia ter sido a amarga lição da derrota para
> Dilma, provocada pela convicção de Serra de que é melhor perder para
> os petistas a eleição e a Presidência do que ter de compartilhar o
> eventual poder após a vitória com os adversários internos de Minas e
> por ter Aécio preferido a solidão do plenário ao convívio com um
> parceiro hostil e enfezado. A prova, contudo, de que a lição dolorosa
> não foi devidamente aprendida, nem sequer assimilada, é a sofreguidão
> com que, contrariando a prudência dos ancestrais, o neto do símbolo do
> político manhoso de Minas opta pelo fato consumado, encerrando a
> conversa ao pé do borralho.
>
> Se a afirmação de Aécio se apoiasse em fatos, ele não teria assumido
> publicamente o que todo mundo, inclusive Serra, está careca de saber,
> mas consumiria o imenso tempo de ócio que lhe permite o mandato
> senatorial de oito anos para encontrar uma solução para desalojar os
> adversários federais do comando da capital de seu Estado. Ao que
> parece, o inegável êxito obtido pelo ex-governador em sua bem-sucedida
> gestão não foi suficiente para permitir que ouça o óbvio ululante de
> que lhe será menos difícil apear do vagão compartilhado com petistas e
> aliados a substituir na prefeitura de Belo Horizonte do que derrotar
> seja Lula, seja Dilma, que, sem dúvida, terão o voto dos aliados
> locais de ocasião dele.
>
> Mais fácil ainda será para seu desafeto paulistano derrotar na disputa
> municipal em São Paulo Fernando Haddad, candidato petista da
> preferência de Lula, ou Gabriel Chalita, mesmo que o noviço
> peemedebista receba de Alckmin, amigo tucano no governo estadual, mais
> suporte do que lhe permite a camisa de força partidária. No entanto,
> Serra não admite sequer discutir a hipótese, de vez que a vitória
> municipal significará o fim de qualquer ilusão presidencial em 2014. A
> impotência da cadeira isolada no Senado de nada serviu a Aécio, que
> também se mostra incapaz de aprender que o capricho dos eleitores
> reduz a pó vãs ilusões de projetos aparentemente imbatíveis. E a
> humilhação de perder para um poste arrastado por um mito também não
> demoveu em um milímetro a prepotência de Serra, que apanha, mas não
> aprende.
>
> Com um cacife menor do que o de ambos, o prefeito paulistano, Gilberto
> Kassab, acaba de lhes prestar inestimável serviço ao demonstrar que o
> desmanche da oposição é muito mais iminente do que sonham os caciques
> sem índios do PSDB e os coronéis sem jagunços do DEM. A porta de
> emergência aberta pelo PSD para a fuga dos oposicionistas que não
> suportarão mais um mandato longe dos cabides das máquinas públicas
> municipais, estaduais e federal transmite um sinal claro aos
> ex-governadores dos Estados com os maiores colégios eleitorais do
> País. Ou eles cuidam de fortalecer as máquinas partidárias do PSDB e
> do DEM – não criando diretórios onde não existem, mas mantendo as
> prefeituras de que dispõem e tomando outras de adversários, ainda que
> se fantasiem de aliados locais –, ou não terão nenhuma chance na
> disputa presidencial, seja a chapa adversária encabeçada por Lula,
> Dilma, Marta ou Mantega.
>
> Fato é que 2014 ainda está muito longe no tempo e é quase inalcançável
> pelo bico dos tucanos, por mais longo e faminto que seja. Mas não é o
> fim do mundo nem a data da última disputa presidencial no Brasil.
> Aécio pode muito bem esperar. Serra, nem tanto. Mas antes um galho
> para pousar e um ninho para se abrigar do que o abismo inevitável de
> mais uma queda anunciada.
>
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.
>
> (Publicado na Pág.2A do Estado de S. Paulo de quarta-feira 12 de
> outubro de 2011)

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