O câncer e o futuro de Lula

> Oi, aqui está meu sueltinho mensal para a página 2 do Jornal da Tarde
> amanhã, terça-feira 1º de novembro:
>
> A opinião de José Nêumanne
>
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> O câncer na laringe
>
> e o futuro de Lula
>
> Quem se regozija com o câncer na laringe de Lula e quem imagina que
> poderá se aproveitar do aumento de seu prestígio por causa da dor que
> ele  enfrentará poderão não se dar bem como pensam
>
> A notícia de que Luiz Inácio Lula da Silva tem na laringe um câncer de
> agressividade média, seja lá o que queira dizer isso, surpreendeu a
> todos. É como se, de repente, se tomasse conhecimento de que é falível
> o titã da política, o semideus da administração pública, o maior ídolo
> popular que já subiu em palanques neste País. Alto lá, gente fina! O
> homem é gente, como você, o recordista mundial dos 100 metros rasos, a
> pobre mulher sertaneja que serve farinha com água para matar a fome da
> imensa prole desvalida e eu.
>
> Bem, vamos convir que ele foi presidente da República e, nesta
> condição, se submeteu aos exames de tecnologia mais sofisticada em
> check ups periódicos em que sua garganta foi vasculhada por sensores
> poderosos e radiação nuclear que desvenda mistérios que tato e vista
> não alcançam. E daí? A medicina é falível como o aparelho, o médico e
> o paciente.
>
> Então, por que este susto todo? O ex-presidente da República não é
> propriamente um ser humano regrado, morigerado e aplicado. Ao
> contrário, é sanguíneo, explosivo, indisciplinado e ingere toxinas a
> granel. O que isso tem a ver com o câncer na laringe? Vai saber! Um
> dos mistérios dolorosos da vida é que de certo mesmo só se sabe que
> cedo ou tarde ela se extinguirá, mas a fragilidade do sopro vital
> sempre corresponde à surpresa da chegada da doença. Além do mais, no
> último decênio, o paciente do dr. Calil tem sido o ponto de referência
> para convergir ou para divergir na cena pública nacional. Difícil
> encontrar quem seja neutro ao julgá-lo, impossível lhe ser
> indiferente.
>
> Lula é gente como qualquer de nós e, como todos estamos atados à
> certeza da visita da Indesejada das Gentes, bastando para tanto que
> exista, merece respeito e piedade. A paixão em torno de sua atuação
> pública, contudo, produziu desafetos que se regozijam com sua dor e
> prosélitos que receberam a notícia como se dissesse respeito a um ente
> querido muito próximo. A condição humana é como é: falível e parcial.
> Uma reação é desumana; a outra, irracional; e ambas, despropositadas.
>
> Impossível saber se o tumor maligno lhe reduzirá o prazo de vida.
> Muitos contemporâneos mais jovens e hígidos poderão sucumbir antes,
> outros mais próximos da morte poderão sobreviver a ele. Só uma coisa é
> certa: a experiência mostra que no convívio com as massas a dor do
> ídolo poderá exacerbar a idolatria. Quem contar com o fim da
> popularidade do paciente pela eventual perda de seu principal
> instrumento, a palavra falada, poderá ser surpreendido pela
> canonização em vida da vítima. Quem pretender prosperar sob a sombra
> do ícone semovente poderá aprender que  idólatras nada  veneram além
> do ídolo.

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