A revolução dos filhinhos do papai

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> Oi, aqui está meu artigo para a página 2 do Estadão de amanhã, abraço,
> tudo de bom, Nêumanne:
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> A revolução dos “bichos
>
> grilos” mimados da USP
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> José Nêumanne
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> É proibido fumar maconha na nave da Sé, na rua, nas boates e no câmpus
> da Universidade
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> A Universidade de São Paulo (USP) é a maior instituição de ensino
> superior do Brasil. Com 11 câmpus e 89 mil alunos matriculados, dos
> quais 50 mil na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira,
> figura também entre os mais reconhecidos centros de excelência em
> pesquisa científica e produção de pensamento filosófico do
> subcontinente latino-americano. No entanto, nenhum de seus mais
> respeitáveis mestres de Matemática será capaz de explicar de que tipo
> de legitimidade foram ungidos os 73 vândalos que ocuparam dois prédios
> – um da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
> Humanas (FFLCH) e outro da Reitoria – para merecerem do reitor anistia
> “administrativa” pelos danos cometidos contra o patrimônio, de
> propriedade da cidadania brasileira, que sustenta suas atividades de
> aprendizado. Nem sequer o grego Aristóteles, preceptor de Alexandre, o
> Grande, encontraria alguma lógica na concessão dada a, digamos, 600
> estudantes para decidirem sobre a permanência de jovens turbulentos e
> estranhos ao expediente nos dois prédios, a pretexto de protestarem
> contra a presença da Polícia Milita (PM) no câmpus, que consideram
> “território sagrado” e inviolável..
>
> Quem se depara com a informação de que os invasores dos prédios só
> admitiam negociar com a Reitoria se os policiais fossem afastados da
> Cidade Universitária pode ter a falsa ideia de que, de repente, num
> pesadelo inimaginável, tivéssemos voltado à ditadura, que reprimia a
> liberdade acadêmica. Nada disso! Entre janeiro e abril deste ano, os
> roubos no câmpus aumentaram 13 vezes e os atos de violência – entre os
> quais estupros e sequestros relâmpagos – cresceram 300%. Em maio, um
> estudante de Economia foi morto num assalto. O sangue dele foi a gota
> que fez o cálice transbordar e a direção da USP assinar um convênio
> com a PM para que soldados fizessem o papel que vinha sendo
> desempenhado por 130 agentes de segurança patrimonial, que, em dois
> turnos, vigiavam dezenas de prédios e vários estacionamentos e
> garantiam a segurança de 100 mil pessoas que circulam todo dia pelas
> ruas da sede da USP. Em quatro meses de policiamento, os furtos de
> veículos caíram 92,3%; os sequestros relâmpagos, 87,5%; os roubos,
> 66,7%; e os delitos de lesão corporal, 77,8%.
>
> Tudo corria muito bem até o dia em que policiais militares que
> patrulhavam as ruas amplas e arborizadas do aprazível local abordaram
> três alunos que fumavam maconha no prédio da História e da Geografia.
> Quando tentaram levá-los para o 91.º Distrito Policial (DP) para
> registrar a ocorrência, os agentes da lei foram atacados por uma horda
> de cerca de 200 estudantes. Do entrevero resultaram policiais feridos
> e seis viaturas apedrejadas. Minorias radicais que controlam
> diretórios acadêmicos e sindicatos de servidores e professores  usaram
> o incidente como pretexto para um violento protesto contra a presença
> da polícia “repressora” em “seu” câmpus. Os rebeldes ocuparam um
> prédio da FFLCH, transformado em QG de sua guerra contra a
> “neorrepressão”.
>
> A congregação da faculdade cujo prédio foi invadido apoiou a invasão e
> a reivindicação dos amotinados. Mas, numa demonstração de que,
> felizmente, é possível estudantes aprenderem certo, mesmo quando seus
> mestres ensinam errado, a maioria dos alunos aprovou, em duas
> assembleias, a imediata desocupação dos prédios e o policiamento das
> ruas. A decisão era de uma sensatez cristalina. Afinal, as únicas
> prejudicadas com a presença de policiamento no local foram as
> quadrilhas instaladas nas favelas que cercam a sede da universidade,
> os quais tiveram reduzidos seus lucros no furto de bens, na sevícia de
> pessoas e na venda de drogas. A serviço dessas quadrilhas – da mesma
> forma que as Farc, na Colômbia, se tornaram a guarda pretoriana dos
> traficantes de cocaína e o crime organizado no México se aliou ao
> terrorismo internacional patrocinado pelo Irã –, os grupelhos
> esquerdistas desprezaram a decisão democrática dos colegas, ocuparam a
> Reitoria e exigiram a retirada da polícia para negociar a retirada.
>
> Ao invadirem os prédios, mascarados, os ativistas da revolução dos
> filhinhos dos papais da USP mostraram que não tinham vergonha de se
> comportar como os assaltantes de diligências no Velho Oeste americano.
> E que contavam com a possibilidade de não ser identificados na hora de
> terem de pagar por seus crimes. Ao aceitar sua exigência de que os
> anistiaria desses delitos, o reitor João Grandino Rodas agiu com a
> pusilanimidade com que habitualmente os administradores universitários
> enfrentam esses delinquentes.
>
>
>
> Desde que a escolha dos reitores passou a ser feita pelo voto de
> alunos, funcionários e professores, a politicagem vem sendo a moeda de
> troca que tem permitido esse tipo de baderna, nociva ao livre
> aprendizado e à pesquisa que a sociedade paga caro para manter em
> instituições como a USP. Felizmente, contudo, a autoridade policial
> não precisa dos votos dos baderneiros e fez o que devia ser feito:
> numa operação espetacular e exemplar, retomou os prédios dos invasores
> e os levou em ônibus para a delegacia, da qual cada “bicho grilo”
> mimado só saiu depois de pagar fiança de R$ 545, valor razoável para
> as famílias de privilegiados de elite que não frequentam aulas que
> poderiam estar sendo ministradas a filhos de pobres, que pagam as
> contas da USP e não têm chance de frequentar seus cursos caros e
> disputados.
>
> O câmpus de qualquer instituição acadêmica é sagrado para a
> transmissão do saber, não para o consumo de drogas. É proibido fumar
> maconha na nave da Sé, na rua, em boates e na Cidade Universitária. Os
> “bichos grilos” mimados que se disseram “torturados” por terem sido
> levados de ônibus – e não nos carrões dos pais – para a delegacia
> devem ser fichados como bandidos comuns e expulsos da universidade
> para outros que querem e precisam estudar recebam a educação que eles
> desprezam.
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> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> (Publicado na Pág. A02 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 9 de
> novembro de 2011)

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