As festas da rua velha

AS FESTAS DA RUA VELHA
(Josessandro Andrade)

“Na Rua Velha a liberdade
Onde fincava pião
Na Ponteira da Saudade
Olhos de Padre Aragão
Teatrinho de brinquedo
Meu fantoche de papel
Sem assombração nem medo
Fiz minha torre de Babel
Mirando da Pedra Grande
Vê-se a torre da matriz
Rabo de peixe de flandre
Academia de giz
Pelas teias da lembrança
Tempos que não voltarão
Rede que dança e balança
Asas da imaginação”.

    Esta composição de meu primo e amigo Antônio Amaral, que é cantada por ele no nosso Show poético-musical “Água Fria de Alagoa de Baixo”, Brinda-nos com uma pequena mostra do universo de encantamento que emoldura a Rua Velha,
     Onde tudo começou em nossa Terra. Compreendendo a Praça Amarão Lafayete, a Rua Sete de Setembro, ele praticamente se estende de forma afetiva a outras artérias vizinhas, como a Travessa Albuquerque – Né, a Rua Álvaro Barbalho e a Rua de Juá, que fazem parte da região metropolitana que a circunda e bem mais que em um bairro inteiro se constitui. A Rua Velha com suas ricas  vivências, com  suas  memórias políticas e pujança econômica e cultural, a Rua dos primeiros Mercado, Feira, Escola e biblioteca, de tantos poetas como Ulysses Lins, Luiz Pintô, Hamilton Rodrigues, Wilson Freire, Antônio Amaral, Walmar, Walter Amaral, Luiz Pinheiro, Flávio Magalhães, Corsino de Brito, de tantas musas, serenatas, amores, segredos, preces, paixões e ideais. 
    Pois bem, não é de hoje que a Rua Velha vem sofrendo um processo de degradação física e cultural, desde a agressão a seu patrimônio histórico com a derrubada do Coreto, passando pela destruição de vários casarões ou descaracterização de fachadas. Acharam pouco! Agora investem a violência (sim, pois falta de respeito também o é), contra o que restava do Patrimônio Imaterial: as festas da rua velha.

“Quem subiu prá Rua Velha
Sem fazer calo no pé
Não chupou abacaxi
Nem se embebedou em Pé
Não esquentou a fivela
Agarrado com Zabé
Lá no forró do Mercado
Não conhece Arrastapé”.

    Digo isto porque Dezembro chegou e com ele as festas da Padroeira, Natal, Ano Novo. A Rua Velha, (que na verdade foi o ventre onde Sertânia ganhou a vida), durante mais de cento e cinquenta anos serviu de palco glorioso destes festejos famosos.

“O Juju de Zé de Carocha
Rodava feito Pião
A onda de Pedro Tito
Subiu mais que Avião
Carrossel de Chico Padeiro
Roncando no meu terreiro
Nos Oito da Conceição”.

    A festa da Padroeira de velhos tempos e distintas épocas, contada e cantada nos versos de Quatro poetas de gerações diferentes: Antônio Amaral, Cieudes Brasiliano, Anacleto Carvalho e Bartolomeu Brasiliano, resgata a poesia do baú de infâncias perdidas, o movimento das ruas, os costumes, as barracas, as comidas, o Pastoril, os leilões, os fogos, os brinquedos dos parques de diversões, as bandas de música, as cavalhadas, os bacamartes, pífanos da Orquestra de Sons Populares, num relato carregado de emoção singular de cada um, mas que se encaixam para compor um grande mosaico de coloridas e doloridas saudades.

“Na festa da Padroeira
Era isso que se via
Cachaça, forró, folia,
Botecos pras bebedeiras,
Meninos espavoridos,
Fazendo grande alarido,
Ao tropel das correrias
Dos carrosséis esquecidos”.
    A canção "7 e 8 de Dezembro", Que a maioria das pessoas chama de "A Música da Rua Velha", É Um Arrasta-pé épico com melodia de Heuris Tavares, gravada em 2000, na voz de Daniel Medeiros (um artista dos mais telúricos de Sertânia e de formação religiosa evangélica). Quando toca levanta o povo, povo canta, povo dança, se emociona, assim como quando ouvia os sacudidos frevos - de - rua de Francisquinho, com a sua clássica "Batalha de Confetes", Nos carnavais da Orquestra Marajoara, quando ainda existia América E.C.

Cavalhada e Pastoril
Até leilão existia
Na calçada da igreja
Até o Padre bebia
E matutada brincava
Até manhecer o dia”.

    Evoco estas reminiscências justamente a pedido de uma vasta gama de pessoas perplexas com o fim da festa da padroeira de Sertânia. Soubemos até que alegaram que o que acabou foi a festa profana e não a festa da padroeira, como se uma pudesse existir sem a outra ou estivessem desassociadas depois de mais de 150 anos de convivência em Alagoa de Baixo e em Sertânia.
    Mas pergunto onde foi que acabou a festa profana? Sim, porque ela continua acontecendo no calçadão da igreja, com várias barracas, que vendem mercadorias e produtos com exclusividade de negociar para a paróquia. Dói, constrange e revolta saber que a igreja que fala tanto em defender a pobreza, quantos pais de famílias pobres deixou proibidos de ganhar um dinheirinho, comercializando nas barracas que tradicionalmente se colocava para vender maçã melada, abacaxi, rolete de cana, gengibirra, xerém com galinha, cachaça, sorvete de raspa-raspa, bolo de mandioca, tendas de jogo, juntamente com as novenas, os balões, as procissões e foguetório, enfim tudo que construiu um dia esta festa. Como é que se acabam tradições de mais de cem anos da vida de uma cidade, sem conhecer a história e a realidade dela e todo mundo aceita, se cala e consente. Pecam por omissão!
    Desta forma, podemos concluir que a igreja foi egoísta, uma vez que passou a monopolizar o comércio da festa e ainda mais sob o argumento de que pratica tal ato em nome da casa do Senhor, pois diz-se que é para ela o que é arrecadado. A festa ficou mais profana ainda, pois o altar sagrado onde se deve exclusivamente pregar a palavra de Deus, é usado para autoridades e políticos fazerem discursos, com direito a fogos de artifício e tudo mais.
    É muito fácil evangelizar dentro de uma igreja. Em um templo, até um pistoleiro comporta-se bem, diz-me o poeta Zenilton, do Alto do Rio Branco. No entanto, o desafio é evangelizar fora da igreja. Por isto que muita gente está afastada do catolicismo, que já não atrai os jovens. Eles com sua irreverência e criatividade são avessos aos excessos de prepotência, bajulação e purismo sem consistência. E não são eles que não querem vida espiritual, pois apesar de católico, tenho uma filha que frequenta uma igreja evangélica e lá mais de 50 jovens e adolescentes uniformizados dirigem o culto com Datashow e telão, pregam , apresentam-se em banda, teatro e coral, num clima de muita alegria e entusiasmo. E nossa Igreja católica, que só olha para seu umbigo, egoísta, acomodada e sonolenta. Envelheceu e não seu deu conta.
    Neste clima de inquisição, proibiram até o Parque de Diversões de Severino Amador, um dos maiores entusiastas da festa da padroeira (Parque de Diversões Imaculada Conceição), que já fazia parte do folclore das festas de Dezembro na Rua Velha. Tivemos conhecimento inclusive que D. Edileuza Estima, esta pessoa formidável, grande educadora e artista de Sertânia chegou a ser maltratada. Onde é que nós estamos minha gente?
    Convém ressaltar e parabenizar a ornamentação Natalina feita pela Prefeitura Municipal, bonita e organizada, constituindo-se numa novidade que dá um clima de Natal a Rua Velha, como coração da cidade. Coisas novas que poderiam conviver com as tradições. Este é o costume do mundo civilizado, principalmente dos países de primeiro mundo e não um substituir o outro, como aqui se faz. A destruição da memória e tudo que ela possui em nome de algo, que ainda não se sabe o que é no caso aquilo que chamam de moderno em arquitetura, em música e na vida clerical.
    No final do Ano, principalmente para o povo da zona rural havia todo um ritual de preparação para o Réveillon: vinha – se de cavalo, de carro-de-boi, a pé, de caminhão para receber o ano novo. Duval Brito, nascido no Riacho Verde, hoje morando em Paulo Afonso – BA e Luiz Wilson, oriundo do Recanto, hoje radicado em São Paulo-SP, ambos poetas, compositores e meus primos, vieram em 2009, no dia 31 de Dezembro, para relembrar velhos tempos e amanhecer o dia nas barracas, tomando cerveja, vendo a festa. Frustração deles e vergonha minha. Nem parque, nem barracas, nem gente, a Rua velha parecia um imenso deserto ou um povoado fantasma.
Até Quando?
Por: Josessandro Andrade

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