As primeiras diatribes de 2012

> Agentes da impunidade
>
> nos Três Poderes
>
> José Nêumanne
>
> Quem beneficia Arruda, Waldomiro, mensaleiros e “aloprados”, evitando
> que sejam  processados?
>
> Há algo em comum e, da mesma forma, uma grande diferença entre o
> militante petista Waldomiro Diniz e seu adversário político José
> Roberto Arruda, desalojado do governo do Distrito Federal e do partido
> pelo qual fora eleito, o DEM, além do fato de este ser um partido de
> oposição ao governo do PT.
>
> Em fevereiro de 2004, a revista semanal Época revelou a existência de
> um vídeo no qual o citado Waldomiro, encarregado do relacionamento
> entre a chefia da Casa Civil do presidente Luiz Inácio da Silva, que
> havia celebrado um mês antes um ano em seu primeiro mandato, e o
> Congresso Nacional, achacava um empresário da jogatina, Carlos Augusto
> Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, para financiar campanhas eleitorais
> de aliados do grupo no poder federal nas eleições estaduais de 2002.
> Seus beneficiários seriam Rosinha Matheus, que tinha passado pelo PSB
> e, à época do achaque, estava no PMDB; Benedita da Silva, do PT, ambas
> no Estado do Rio; e o petista Geraldo Magela, do Distrito Federal. O,
> digamos, “bingueiro” foi escolhido para a abordagem porque o militante
> ocupava, à época, a presidência da Loteria do Estado do Rio de Janeiro
> (Loterj) e lhe oferecia em troca da propina favorecimento em
> concorrências.
>
> O achacado não se fez de rogado, gravou e filmou o encontro, tendo o
> vídeo chegado às mãos dos jornalistas da revista, que reproduziu seu
> conteúdo e ainda obteve do denunciado confissão cabal do delito
> cometido. Waldomiro Diniz foi demitido de seu posto e despejado do
> gabinete que ocupava no Palácio do Planalto a reduzida distância de
> seu chefe, o então todo-poderoso titular da Casa Civil José Dirceu, e
> do superior hierárquico dos dois, Luiz Inácio Lula da Silva. A
> reportagem está para completar o sexto ano de sua publicação e, embora
> afastado das prerrogativas e benesses do poder na República, o
> indigitado continua gozando plena liberdade, numa prova viva e
> circulante de que o Brasil oficial merece o apodo do título do livro
> do jornalista paraibano Sebastião Barbosa: “o país da impunidade”. Por
> incrível que pareça, desde então a Polícia Federal (PF), partindo de
> uma gravação inequívoca e de uma confissão que não deixa dúvidas, não
> conseguiu produzir um inquérito que pudesse ser aceito como válido
> pelo Ministério Público Federal (MPF).
>
> Numa dessas circunstâncias que podem até ser assustadoras, mas não são
> surpreendentes, essa é exatamente a justificativa que o Ministério
> Público dá para outra efeméride. Quatro anos depois do escândalo na
> Casa Civil de Lula, caso bastante similar explodiu no gabinete do
> então governador José Roberto Arruda. Sua Excelência foi filmada e
> teve sua voz gravada recebendo explicitamente pacotes de dinheiro de
> seu ex-secretário Durval Barbosa, que fez o vídeo por ele produzido
> com o flagrante chegar às mãos da mesma PF em troca de delação
> premiada. Ao contrário de Waldomiro, contudo, e aí está a primeira
> diferença entre os dois, Arruda não foi pilhado sozinho com a boca na
> botija. O deputado distrital Leonardo Prudente também o foi e guardou
> a propina na meia.
>
> Tal como Waldomiro, Arruda perdeu seu valioso emprego público, obtido,
> no caso dele, por sufrágio universal, secreto e soberano da população
> do Distrito Federal. Mas, da mesma forma como o adversário e
> antecessor em recebimento flagrado de suborno, até agora não se viu
> obrigado a responder pelo delito perante a Justiça. Para tanto, ambos
> não precisaram de álibis nem padrinhos fortes no Judiciário. Assim
> como ocorreu no escândalo quatro anos mais velho, a investigação do
> “mensalão do DEM” foi prejudicada, segundo o MPF, pela falta de
> “vários documentos” no relatório encaminhado pela PF. De acordo com a
> Procuradoria, sem esses documentos seria “impossível o oferecimento da
> denúncia por causa da técnica própria da ação, que obriga o membro do
> Ministério Público Federal a apresentar as provas dos fatos que
> afirma”. Essa conclusão impediu que o procurador-geral da República,
> Roberto Gurgel, cumprisse a promessa de que denunciaria o
> ex-governador e seus cúmplices “sem falta” no ano passado, feita logo
> após a sabatina a que foi submetido para ser reconduzido ao cargo, em
> agosto. Agora ele pediu mais tempo para evitar delongas no processo
> judicial e, assim, apresentar uma denúncia que chamou de “robusta”.
> “Embora seja frustrante a demora, seria ainda mais frustrante a
> precipitação de oferecer uma denúncia que acabasse por não estar à
> altura da gravidade daquela situação”, disse ele. Em 2006 a
> Procuradoria levou dez meses para denunciar o esquema do mensalão
> federal do PT, revelado em 2005.
>
> Mas como a impunidade no Brasil tem muitos agentes nos três Poderes,
> convém anotar que de pouco serviu a presteza do procurador-geral há
> cinco anos, que é louvável, pois o esquema que o ex-chefe de
> Waldomiro, José Dirceu, é acusado de comandar tornou réus do Supremo
> Tribunal Federal (STF) 38 políticos, doleiros e empresários. Pois
> desde 2006 e em via de chegar ao sexto ano, só agora o relator do
> caso, ministro Joaquim Barbosa, entregou a seus pares seu parecer a
> respeito do episódio, às vésperas da eventual prescrição dos
> principais crimes de que são acusados os denunciados como chefes do
> esquema, o de formação de quadrilha. E o revisor do processo, Ricardo
> Lewandowski, avisou que vai levar um bom tempo para tomar conhecimento
> de um caso do qual qualquer cidadão brasileiro conhece praticamente
> tudo o que ocorreu, e isso, por si só, levanta dúvidas quanto à
> punição dos eventuais culpados.
>
> Waldomiro, Arruda e os mensaleiros, bem como os ditos “aloprados”, que
> produziram um dossiê falso contra o tucano José Serra na eleição
> paulista de 2006, têm-se beneficiado da impunidade que, pelo visto,
> depende da incúria da PF, que, assim, não seria tão “republicana”
> quanto se proclama, ou do MPF, que, então, não seria a palmatória do
> mundo que garante ser.
>
> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> (Publicado na Pág. A02 do Estado de S. Paulo de quarta-feira 4 de
> janeiro de 2011)

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