Centro de Pesquisas da Inglaterra coloca Brasil como sexta maior economia do mundo: E daí ?

Não deixa de ser uma notícia interessante de final de ano. Para quem viveu um “milagre” nos anos de 1970 e chegou a ser a sétima economia do mundo naquele período, fechar 2011 em sexto lugar vai dar panos pras mangas.
Chegar a essa condição pode refletir muitas coisas. Crescimento de investimentos estrangeiros, crescimento do PIB nacional, desenvolvimento tecnológico, melhor distribuição da renda… embora a sexta posição ainda possa esconder graves desequilíbrios sociais e, até mesmo, econômicos.
Em 28 de novembro último, no Rio de Janeiro, no Hotel Novo Mundo, coordenei uma Mesa de debates da qual participaram Tânia Bacelar, Marcio Pochmann, Nelson Barbosa e Wilson Cano. O evento, iniciado pela manhã, com uma outra Mesa na parte da tarde, convocado pelas Fundações de estudos do PT, PSB, PC do B e PDT, buscou refletir a atual Crise do Capitalismo no mundo e as alternativas de desenvolvimento a esse processo. Tânia destacou o atraso educacional crônico do país, mesmo em momentos de crescimento da economia e de estabilidade monetária. Pochmann ressaltou a necessidade da recuperação do papel do Estado como condutor do processo de desenvolvimento. A intervenção mais aguda foi a do Professor da UNICAMP, Wilson Cano, um de nossos maiores pesquisadores sobre o tema da industrialização. Cano ressaltou a longa trajetória de queda da participação da industria de transformação no PIB nacional, culminando com a perda de 50 pontos percentuais no PIB em dez anos. Vale ressaltar que parte desse período coincidiu com a supremacia da política de combate à inflação ( orientada pela adoção do regime de metas de inflação ) assentada em permanente elevação da taxa básica de juros, a SELIC.
Coincidentemente, em 2009, depondo na CPI da Dívida Pública, da qual fui Deputado Titular, a Economista e Professora da Universidade de Brasília, Maria de Lourdes Rolemberg Mollo mostrou que durante os anos de elevação das taxas de juros, o investimento empresarial em máquinas e equipamentos (formação bruta do capital fixo) se reduziu sensivelmente, sendo menor que nos anos de 1980, a chamada década perdida, permanecendo em baixo percentual do PIB, menos de 20%. A preferência foi aplicar o patrimônio empresarial nos papéis do tesouro nacioonal, dinheiro gerando mais dinheiro, sem produção.
No mesmo período em que se registrou um férreo controle da inflação o país assistiu ao fracasso da concretização de seu Plano Nacional de Educação aprovado em 2001 e que deveria atingir metas até 2010. Apenas 33% de suas metas seriam atingidas, segundo avaliações publicadas agora em 2011. Não nos faltaram receitas fiscais para financiar a educação mas essa área foi submetida à prioridade do pagamento da dívida pública, turbinada pela elevação dos juros no combate à inflação, os mesmos juros que chegaram a pagar a rentabilidade de, em média, 48% do total de papéis da dívida, entre 1999 e 2010.
Além dessa precariedade chegamos ao final de 2011 com um aumento de 75%, em dez anos, da população que vive em condições urbanas precárias, habitações insalubres, favelas, encostas de morros, áreas alagadas, sem regularização fundiária, como revelou recentemente estudo do IBGE publicado aqui no site.
Ser a sexta economia do mundo revela intensa atividade, considerável volume de investimentos e, como vem sendo o caso brasileiro, concentração produtiva e expressiva internacionalização de nossa economia. Revela também, em contradição, setores da economia que, puxados pelo comércio internacional, mantem-se intensivos em produtos primários, agrícolas e minerais, nos dando saldo positivo na balança comercial quando só dependemos deles mas sendo largamente superados pelo déficit comercial quando entram no cálculo a importação e exportação de produtos de média e alta tecnologia.
Em www.ppge.ufrs.br/akb , nos Anais da IV Conferência internacional da Associação Keynesiana Brasileira, realizada em agosto de 2011, você encontrará o trabalho de André Modenesi, Salvador Werneck Viana e Miguel Bruno ( “Macroeconomia do desenvolvimento: Uma agenda de pesquisa” ), onde os autores destacam esse desequilíbrio na balança comercial.
Também no Ipea, em http://www.ipea.gov.br/, você encontrará, na edição 13 do Boletim Radar, um estudo de Fernanda de Negri destacando dados que sinalizam para uma possível reprimarização da pauta de exportações brasileiras.
Por isso o posto agora revelado da economia brasileira deve ser analisado com serenidade, sem a euforia que se gerou na época da ditadura militar, quando se atribuiu ao nosso crescimento o pomposo título de “milagre brasileiro”.
Há muito que se estudar sobre esses números, sobre nossas contradições, sobre nossos modelos de desenvolvimento e consumo, sobre nosso padrão de acumulação de riquezas e de desenvolvimento ambiental e regional. Nossas cidades estão inchadas, sem mobilidade, mas a indústria automobilística bate recordes de vendas e de incentivos fiscais patrocinados pelo governo federal. As grandes empreiteiras brasileiras de obras públicas estão internacionalizadas mas o país não universalizou água, saneamento e moradia com dignidade. Somos agora a sexta economia mas nossos indicadores de educação estão atrás de mais de 50 países no mundo, até mesmo atrás de países da América Latina, com economias muito mais frágeis que a nossa. Sem falar na violência e na criminalidade que atinge nossa juventude e nas precárias condições de atenção à saúde da população, com atendimento de 50% pelas equipes de saúde da família, desde a criação do SUS, cobertura que chega a apenas 20% nas cidades acima de 500.000 habitantes.
Que essa revelação não seja usada pelo governo Dilma nem pelos oportunistas de uma economia dissociada da face humana da sociedade para se gerar mais euforia, mais endividamento das famílias e mais crescimento sem qualidade de vida para nossa população. Sermos a sexta economia não quer dizer, de modo algum, que estejamos no caminho certo nem que tudo está em boas mãos. Muito que pensar, muito que refletir, des-velar esse número, submeter a economia, como ciência social, ao interesse público.

Deputado Federal Paulo Rubem ( PDT-PE )

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