Sucessão pegando fogo emSão Paulo

Apoio de Kassab torna ex-governador único tucano viável para enfrentar Haddad
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> Apesar de ser o maior colégio eleitoral municipal do País, a capital
> paulista nunca protagonizou eleições para a Prefeitura que tivessem
> consequências nos pleitos imediatos para a Presidência da República
> nem para o governo do Estado. Este ano, contudo, o panorama parece ser
> bastante diferente: nos governos federal e de Estados importantes como
> Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco, a aliança governista,
> sob o comando do Partido dos Trabalhadores (PT), tem uma espinha
> entalada na garganta de seu projeto de conquista do poder pelo voto
> popular: apesar de terem vencido as três últimas eleições nacionais,
> Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram derrotados tanto na
> capital como no Estado de São Paulo. E, tendo mudado de armas e
> bagagem para São Bernardo do Campo, onde elegeu para a prefeitura seu
> sucessor na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos, Luiz Marinho, o
> ex-presidente resolveu usar seu capital de popularidade para começar o
> projeto de conquista do último bastião adversário, São Paulo de
> Piratininga, pela eleição de um correligionário de confiança, para, no
> passo seguinte, subir as colinas do Morumbi.
>
> O projeto de Lula é audacioso e arriscado: depois de ter sido
> diagnosticado um câncer em sua laringe, local estratégico para o
> exercício de seu maior trunfo, o discurso, usou a desvantagem para
> retirar de cena a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy e impor ao
> partido o noviço Fernando Haddad. Assumiu tarefa hercúlea num desafio
> à lógica e à sensatez. Seu ex-ministro da Educação, novo, bonito e sem
> rejeição que assuste, não é conhecido, mas tem um passado capaz de
> condená-lo: as lambanças cometidas pela burocracia que comandou na
> realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prato cheio para
> adversários no horário gratuito dos partidos no rádio e na TV.
>
> Afastados os pretendentes não ungidos pelo chefão popularíssimo,
> Fernando Haddad não conseguiu até agora tirar proveito das vantagens
> que seus adversários da oposição, os tucanos em particular, lhe têm
> oferecido de mão beijada. Único no palanque petista, ainda não se
> demonstrou capaz de ganhar terreno com o tempo perdido na escolha do
> candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) para
> domingo que vem, quando se realizará sua prévia.
>
> Tudo mudaria para melhor se Gilberto Kassab, do Partido Social
> Democrata (PSD), tivesse, como chegou a anunciar, confirmado o apoio à
> chapa do PT. Mas foi o anúncio que fez os ventos favoráveis ao projeto
> de Lula, Dilma e Haddad mudarem de direção. Ao ensaiar seu
> surpreendente movimento para a esquerda, o prefeito paulistano
> sentiu-se forçado a deixar patente que apoiaria incondicionalmente o
> ex-governador José Serra. Desde que o processo sucessório foi
> deflagrado em São Paulo, o tucano nunca hesitou em se dizer fora da
> luta pela Prefeitura para manter acesa a chama de sua ambição de
> enfrentar Dilma Rousseff na eleição presidencial de 2014. Kassab
> acreditou nisso até o fim e, aí, deu o pretexto para o recuo
> inesperado, mas que se tornou inexorável, de Serra.
>
> Num pleito difícil e disputado como será o deste ano no maior
> município do País, só um louco abriria mão do apoio do prefeito, que
> manda no PSD, ou seja, decidirá para que candidato irá o tempo
> disponível para seu partido no horário gratuito no rádio e na
> televisão (se o ganhar no Supremo) e trabalhará a máquina
> administrativa da Prefeitura. Essa obviedade vem recheada com uma
> revelação: na entrevista que deu na semana passada ao Valor Econômico,
> o secretário das Finanças que Kassab herdou de Serra, Mauro Ricardo
> Costa, anunciou que este ano os cofres paulistanos estão abarrotados
> para transformar a cidade num canteiro de obras, reluzente e sólido
> trunfo de qualquer candidato em cujo palanque o prefeito subir.
> Somente um político alienado deixaria de considerar os efeitos que
> poderão produzir os planos habitacionais, escolas e hospitais que
> forem construídos com as sobras de caixa da Prefeitura, que o
> secretário sovina que virou estroina calcula entre R$ 4,3 bilhões e R$
> 6 bilhões.
>
> Nem o governador paulista, Geraldo Alckmin, de posse dos cordéis que
> manipulam o teatro de marionetes da eleição municipal, se sentiria
> confortável em manter o pé atrás em relação à candidatura de seu
> ex-chefe e sempre rival. Ao anunciar que o único tucano que apoiará
> será Serra, Kassab escreveu o roteiro da retirada de seu companheiro
> de chapa em 2004 de sua posição, que ele imaginava irremovível, de se
> guardar para disputar com o senador e ex-governador mineiro Aécio
> Neves a legenda preferencial contra a presidente petista, daqui a três
> anos.
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> Dos quatro inscritos na prévia marcada para o dia 4, os secretários
> estaduais Andrea Matarazzo e Bruno Covas já apoiaram o ex-governador,
> empurrados pelo clamor do óbvio ululante. A importância do pleito não
> comporta movimentos de ambição ou vaidade. Até este texto ser escrito,
> contudo, outro subordinado de Alckmin, o secretário José Aníbal, e o
> deputado Ricardo Tripoli insistiam em enfrentar o ineludível. O pior
> que lhes pode acontecer se mantiverem a teimosia até o fim será um
> deles vencer Serra nas prévias. Pois, se isso ocorrer, fatalmente
> Kassab correrá para o regaço de Dilma, Lula e Haddad, que o esperam
> ansiosamente; Alckmin lavará as mãos da sorte de qualquer uma das
> candidaturas, de vez que terá cumprido o seu dever de pedir que os
> pretendentes renunciassem em nome não da disciplina nem dos interesses
> maiores do partido, mas do apreço aos fatos; e Serra terá atendido ao
> apelo dos companheiros e readquirirá autoridade moral para disputar o
> que sempre lhe interessou mais: a convenção contra Aécio e a eleição
> contra o PT
>
> Se ocorrer a improvável vitória de um adversário de Serra nas prévias,
> seja Aníbal, seja Tripoli, o malogro eleitoral não premiará nenhum dos
> dois sequer com o saco de batatas que Machado de Assis dizia ser
> reservado aos vencedores nas guerras tribais.
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> Jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde
>
> (publicado na Pag. 2A do Estado de S. Paulo de quarta-feira 29 de
> fevereiro de 2012)

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