100 anos de Luiz Gonzaga

> Lua cheia
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> José Nêumanne
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> LP tributo comprova: mais que baião, Gonzagão fez música universal
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> No “maior São João do mundo” em Campina Grande, em 1988, Luiz Gonzaga
> tocou e cantou sentado numa cadeira ao lado de Fagner no Forrock. No
> dia seguinte, almoçou com o astro e outros amigos, entre os quais o
> autor destas linhas e dois membros do Quinteto Violado, Toinho Alves e
> Fernando Filizola, no Manoel da Carne do Sol.
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> Filizola recordou os tempos em que fora guitarrista e arranjador do
> conjunto de iê-iê-iê na onda da Jovem Guarda em Recife, os Silver
> Jets, cujo crooner, Reginaldo Rossi, depois, se consagraria como rei
> da dor de cotovelo brega com Garçom. E aí Seu Lua perguntou ao
> violonista violado:
>
> - Então, esse menino, tu és roqueiro, é?
>
> - Fui, seu Luiz – respondeu Filizola.
>
> - Então, é por isso que Zé Nêumanne gosta tanto da Asa Branca de
> vocês, visse? Ele é roqueiro...
>
> E soltou uma sonora gargalhada, com a qual o Rei do Baião encerrou uma
> brincadeira sobre qual seria a melhor gravação do clássico dos
> clássicos da música regional nordestina, que Carlos Imperial divulgou
> que seria gravada pelos Beatles.
>
> - Ora, a música é minha. A melhor gravação só pode ser a minha!
>
> Será? Neste ano em que a Secretaria de Cultura de São Paulo deixou de
> celebrar o centenário do fundador da música regional que embala a
> saudade e a ginga de milhões de nordestinos que ajudaram a construir a
> maior cidade da América do Sul, as duas melhores homenagens feitas a
> ele foram registradas em 51 gravações inéditas de outras vozes.
>
> Há alguns dias, “bomba” no youtube vídeo de versão não gravada em CD
> nem MP3 de Alceu Valença com a vocalista do grupo Clã Brasil, Lucyane
> Alves, de um xote de Zé Marcolino com quem Gonzaga se aparceirou, Numa
> sala de reboco. O sucesso é tal que o astro se faz acompanhar da
> iniciante em temporada de espetáculos pelo interior do País.
>
> Trata-se de uma definitiva celebração da elegância, da finesse e do
> bom gosto no universo de cafajestice, grosseria e pornografia em que
> se têm transformado o Brasil em geral e o negócio da música popular em
> particular. É claro que a versão gravada por Gonzaga no LP A triste
> Partida, de 1964, é insuperável. Mas sua atualidade é reforçada pela
> aposta do pernambucano de São Bento do Una e da paraibana com raízes
> no Vale do Piancó no reino encantado da delicadeza para espantar os
> maus fluidos desta República da baixaria.
>
> As outras 50 versões inéditas constam do CD triplo 100 anos de
> Gonzagão, produção de Thiago Marques Luiz com direção musical de
> Rovilson Pascoal e André Bedurê, recém-lançado pelo selo Lua,
> referência ao satélite da terra e também ao apelido do sanfoneiro
> egresso do Exu, no sertão do Araripe, Pernambuco.
>
> A escolha dos intérpretes resultou numa demonstração sonora do imenso
> território musical invadido pela estética gonzaguiana. Seu Luiz não
> foi só o criador do baião, o gênio que inventou a estética do
> cancioneiro regional nordestino e o marqueteiro que fundou o negócio
> do forró nas festas juninas. Este lançamento fonográfico mostra um
> alcance maior de sua contribuição ao universo musical do Brasil.
> Compositor, parceiro de letristas geniais (como Humberto Teixeira e Zé
> Dantas), cantor e instrumentista, ele imprimiu sua marca na obra e no
> canto num grau que só pode ser comparado com os sambistas que
> inventaram os desfiles de escolas no Rio de Janeiro nos anos 30.
>
> Gonzagão foi uma astro-rei simples, simpático e hospitaleiro que
> lançou estrelas da música regional, tais como Jackson do Pandeiro,
> Antônio Barros, Marinês e Genival Lacerda, só para citar os mais
> importantes. Estes hóspedes de sua casa na Ilha do Governador nos anos
> 50 são representados na coletânea por Dominguinhos, por ele nomeado
> príncipe herdeiro na sanfona, e Anastácia, que foi mulher e parceira
> do sanfoneiro de Garanhuns em obras primas do forró como Eu Quero um
> Xodó. De uma geração posterior, mas dentro da mesma linhagem, são o
> citado Alceu Valença, ausente da homenagem (como também o foram
> Antônio e Genival) e os presentes Geraldinho Azevedo, Zé Ramalho, Elba
> Ramalho, Cátia de França e Amelinha. Da tribo familiar do próprio Rei
> do Baião faz parte Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha, filho adotivo
> de Lua.
>
> O CD triplo mostra que a “vida de viajante” do mulato inzoneiro do
> Araripe trilhou trajetórias inesperadas. Wanderléa, a “irmãzinha” de
> Roberto e Erasmo Carlos na Jovem Guarda, mostra com quantas guitarras
> se pode tocar não “um”, mas “o” Baião. Edy Lima, que nos anos 1960
> estreou num espetáculo de resgate da cultura popular sertaneja em
> dupla com Teca Calazans e, no decênio seguinte, fez sucesso em Paris
> com os Dzi Croquettes, contribui com o humor em que Lua também reinou.
> Fafá de Belém põe tacacá no semi-árido.
>
> A homenagem, que dificilmente será superada em importância, demonstra
> que o centenário de Gonzagão é apenas o primeiro de uma série. Filipe
> Catto, 5 a Seco, Forró in the Dark, Vanguart, Karina Buhr e outros
> membros da geração do MP4, deixam claro que o futuro é criança na obra
> dele. E, no registro de Roendo Unha (dos Luizes Gonzaga e Ramalho),
> Célia prova que a obra do mestre oferece às novas gerações iguarias
> musicais do mais refinado gosto.
>
> José Nêumanne é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.
>
> (Publicado no Caderno 2+Música do Estado de S. Paulo sábado 11 de
> agosto de 2012)

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