Livro sobre pensamento social do Papa Francisco‏

CIdade do VATICANO

Nós antecipamos um trecho do “Papa Francisco. Esta economia mata”, livro sobre o ensinam
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to social de Bergoglio, escrito por Andrea Tornielli, coordenador de “Vatican Insider”, e Giacomo Galeazzi, vaticanólogo de “La Stampa”. O volume reconhe e analisa os discursos, os documentos e as intervenções de Francisco acerca de pobreza, imigração, justiça social, salvaguarda da criação. E põe em confronto especialistas de economia, finança, e doutrina social da Igreja – entre os quais o professor Stefano Zamagni e,o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi – relatando inclusive as reações suscitadas por certas tomadas de posições do Pontífice. O livro termina com uma entrevista concedida por Francisco aos autores, no início de outubro de 2014.

«Marxista», «comunista» e «pauperista»: as palavras de Francisco
sobre pobreza e sobre justiça social, suas frequentes chamadas à atenção para com os necessitados, lhe renderam críticas e até acusações por vezes expressas com dureza e sarcasmo. Como é que vive este Papa Bergoglio? Por que o tema da pobreza tem sido tão presente em seu magistério?

Santidade, o capitalismo, tal como vivemos nas últimas décadas, é, ao seu ver, é um sistema de algum modo irreversível?

“Não saberia como responder a esta pergunta. Reconheço que a globalização ajudou muitas pessoas a saírem da pobreza, mas condenou muitas outras a morrerem de fome. É verdade que, em termos absolutos, aumentou a riqueza mundial, mas também cresceram as desigualdades e foram geradas novas formas de pobreza. O que observo é que este sistema se mantém com a cultura do descarte, sobre a qual já felei várias vezes. Há uma política, uma sociologia e até uma atitude do descarte. Quando no centro do sistema já não se encontra o homem, mas o dinheiro, quando o dinheiro se torna um ídolo, os homens e as mulheres são reduzidos a meros instrumentos de um sistema social e econômico caracterizado, antes dominado  por profundos desequilíbrios. E assim “se descarta” o que não serve a esta lógica: é tal postura que descarta as crianças e os anciãos, e que também castiga também os jovens. Fiquei impressionado ao saber que nos países desenvolvidos há muitos milhões de jovens com menos de 25 anos, sem trabalho. Então, chamei os jovens  de “nem
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nem”, porque nem estudam nem trabalham. Não estudam porque não têm possibilidade de estudar, não trabalham porque falta trabalho. Mas também gostaria de lembrar aquela cultura do descarte que leva a rejeitar as crianças, inclusive por meio do aborto. Impactam-me os índices de natalidade tão baixos, aqui na Itália: é assim que se perde a ligação com o futuro. Como a cultura do descarte leva à eutanásia dissimulada dos anciãos, que vivem abandonados. Em vez de serem considerados como a nossa memória, o elo com o nosso passado e uma fonte de sabedoria para o presente. Por vezes, me pergunto: qual será o próximo descarte? Temos que parar com isso em tempo. Vamos parar com isso, por favor! Portanto, para tentar responder à pergunta, diria isto: não consideremos esse estado de coisas como irreversível, não nos conformemos. Vamos buscar construir uma sociedade e uma economia em que o homem e o seu bem, e não o dinheiro, estejam no centro.”

Uma mudança, uma maior atenção à justiça social pode dar-se graças a mais ética na economia ou é necessário também prever mudanças estruturais no sistema?

“Primeiro, vale lembrar que há necessidade ética na economia, e que também há necessidade de ética na política. Muitas vezes, vários chefes de Estado e líderes políticos que pude encontrar depois de minha eleição como biso de Roma, me falaram isto. Disseram: os senhores, líderes religiosos, devem ajudar-nos, dando-nos indicações éticas. Se o pastor pode fazer seus apelos, mas estou convencido de que nos é necessário, como recordava Bento XVI, em sua encíclica “Caritas in veritate”, que homens e mulheres ergam seus braços a Deus para rogar-
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he, cônscios de que o amor e a partilha de que deriva o autêntico desenvolvimento, não são produtos de nossas mãos, mas um dom a ser pedido. Ao mesmo tempo, estou convencido de que seja necessário que esses homens e essas mulheres se empenhem, em todos os níveis, na sociedade, na política, nas instituições e na economia, pondo no centro o Bem Comum. Não podemos mais esperar que se resolvam as causas estruturais da pobreza para livrar nossas sociedades  da doença que só pode levar a novas crises. O mercado e a especulação financeira não podem gozar de autonomia absoluta. Sem uma solução para os problemas dos pobres, não resolveremos os problemas do mundo. / Nesse sentido / Servem programas, mecanismos e processos voltados para uma melhor distribuição dos recursos, à criação de trabaho, à promoção integral de quem vive excluído.”

Por que as palavras fortes e proféticas de Pio XI na encíclica “Quadragesimo Anno” contra o imperialismo internacional do dinheiro hoje soa para muitos – inclusive católicos – exageradas e radicais?

“Pio XI parece exagerado para os que se sentem impactados com suas palavras, vivamente atingidos por suas denúncias proféticas. Mas o Papa não era exagerado, disse a verdade depois da crise econômico-financeira de 1929, e como bom alpinista via como as as coisas estavam, sabia enxergar longe. Temo que os exagerados sejam, antes, os que se sentem alcançados pelos pelos reclamos  de Pio XI.

Ainda continuam válidas as páginas da “Populorum Progressio”, nas quais se diz que a propriedade privada não é um direito absoluto, mas está subordinado ao Bem Comum, e aquelas do catecismo de São Pio X que elenca entre os pecados que clamam vingança ante Deus, oprimir os pobres e recusar o justo salário dos operários?

“Sáo afirmações, não apenas  ainda válidas, mas quanto mais o tempo passa, mais percebo que estão comprovadas pela experiência.”

Bateram muito contra suas palavras sobre os pobres
 “carne de Cristo”. Sente-se incomodado pela acusação de “pauperista”?

“Antes que surgisse Francisco de Assis, havia os “pauperistas”, na Idade Média. Havia muitas correntes pauperísticas. O pauperismo é uma caricatura do Evangelho e da própria pobreza. São Francisco, por outro lado, nos ajudou a descobrir o elo profundo entre a pobreza e o caminho evangélico. Jesus afirma que não se pode servir a dois senhores: a Deus e à riqueza. É pauperismo? Jesus nos diz qual é o “protocolo” com base no qual seremos julgados, é o que lemos no capítulo 25 do Evangelho de Mateus: tive fome, tive sede, estive preso, estive enfermo, estive nu, e me ajudastes, me vestistes, me visitastes, estais presos, cuidaste de mim. Toda vez que fazemos isto a um irmão nosso, o fazemos a Jesus. Cuidar do nosso próximo: de quem é pobre, de quem sofre no corpo, no espírito, de quem está em necessidade. A pobreza toma distância da idolatria, do sentir-nos auto-suficientes. Zaqueu, depois que cruzou o olhar misericordioso de Jesus, deu a metade de seus bens aos pobres. A mensagem do Evangelho volta-se para todos, o Evangelho não condena os ricos, mas a idolatria da riqueza, a idolatria que torna insensíveis ao clamor do pobre. Jesus disse que, antes de apresentar a nossa oferta diante do altar, devemos reconciliar-nos com o nosso irmão para ficarmos em paz com Ele. Creio que, por analogia, podemos estender tal critério também ao estar em paz com esses irmãos pobres.

O Sr. sublinhou a continuidade com a tradição da Igreja, nesta atenção aos pobres. Pode dar algum exemplo, nesse sentido?

“Um mês antes da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, disse o Papa João XXIII: “A Igreja se apresenta como é e como deseja se, como a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”. Nos anos seguintes, a opção preferencial pelos pobres entrou nos documentos do magistério. Alguém poderia pensar tratar-se de uma novidade, enquanto, ao contrário, trata-se de uma atenção que tem sua origem no Evangelho, e se acha documentada já nos primeiros séculos do Cristianismo. Se eu repetisse alguns brados das homilias dos primeiros Padres da Igreja, do segundo ou do terceiro século, sobre como devem ser tratados os pobres, haveria quem me acusasse de que a minha é uma “homilia marxista”: “Não é teu o donativo que ofereces ao pobre, tu não fazes senão devolver-lhe aquilo que lhe pertence. Porque o que é dado em comum para o uso de todos é o que reservaste para ti. A terra é dada para todos, e não apenas aos ricos.” São palavras de Santo Ambrósio, que serviram a Paulo VI para afirmar, na “Populorum Progressio”, que a propriedade privada não constitui para alguém um direito incondicional e absoluto, e que ninguém está autorizado a destinar ao seu uso exclusivo o que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. São João Crisóstomo afirmava: “Não partilhar os próprios bens com os pobres significa roubá-los e privá-los da vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles”. (...) Como se pode ver, esta atenção aos pobres está no Evangelho e está na tradição da Igreja, não é uma invenção do comunismo e não deve ser ideologizada, como algumas vezes tem acontecido, no curso da história. Quando a Igreja convida a superar o que tenho chamado de globalização da indiferença”, está longe de qualquer interesse político e de qualquer ideologia: movida tão só pelas palavras de Jesus, deseja oferecer a sua contribuição para a construção de um mundo onde se tenha guarda um pelo outro e onde se cuide um do outro.”


ANDREA TORNIELLI GIACOMO GALEAZZI.

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