Órfãos de pais vivos e crime



A proporção de famílias incompletas, sem a presença paterna, é o melhor preditor do nível de crimes violentos numa comunidade (ou bairro, município, área metropolitana).[1] Tanto maior o número de famílias sem pais ou mães presentes e/ou atuantes, tanto mais elevado o nível de crimes violentos.
Por que?
R. L. Maginnis enumera alguns caminhos através dos quais os pais presentes contribuem para prevenir e controlar a criminalidade dos filhos e filhas[2]:
·       A família completa tem maior estabilidade econômica, menos crises dessa ordem, e um nível de recursos materiais maior;
·       Os pais proporcionam um exemplo, na maioria dos casos com saldo positivo, mas que pode ser ruim, para os meninos. Não tendo o exemplo em casa, o jovem adolescente os buscará em outros lugares, o que aumenta o risco de um seguir um exemplo criminal, de ter vergonha de ser um trouxa, um Mané;
·       Há mais segurança para a família, financeira, emocional e de outros tipos;
·       A presença paterna - particularmente dos que contribuem financeiramente, participam das tarefas domésticas e dedicam carinho e tempo aos filhos e filhas - reduz o estresse das mães.
A presença paterna protetora e carinhosa é essencial, particularmente no que concerne os jovens adolescentes, que são a combinação entre sexo e coorte etária com maior propensão ao crime.
    Quais os efeitos observáveis e mensuráveis, comprovados por pesquisas, que não simples afirmações vazias, do fato de uma família ser incompleta sobre seus filhos e filhas?
·       Maior risco de usar drogas;
·       Maior risco de pertencer a gangues;
·       Maior risco de ser expulso da escola;
·       Maior risco de ser internado numa instituição penitenciária para menores, estilo Degase;
·       Maior risco de se tornarem assassinos já na adolescência;
·       E vários outros comportamentos indesejáveis.

As famílias incompletas fazem com que os filhos e filhas passem menos tempo com uma pessoa que se orienta para suas necessidades, que os acompanha e aconselha. “Sobra” para a família mais ampla, para a vizinhança, para e a escola e para a religião - quando ela existe na vida da família e dos adolescentes. As quatro instituições estão em crise no Brasil, o que reduz a sua influência e o número de crianças e adolescentes que conseguem ajudar.
Nos Estados Unidos, em 1993, foi realizado um survey chamado "Violence in America's Public Schools", a Violência nas Escolas Públicas Americanas. Alguns resultados: 71% dos professores e 90% dos policiais achavam que a falta de supervisão dos pais era um fator muito importante, que contribuía para a violência nas escolas. Menos pais, mais crimes. Essa pesquisa também perguntou qual a opinião das crianças e adolescentes sobre a mesma questão. Sessenta e um por cento dos alunos das escolas primárias e 76% dos alunos das escolas secundárias estavam de acordo com essa opinião.
Essa é apenas uma de muitas pesquisas feitas nos Estados Unidos que apontam na mesma direção. Não é uma “coisa americana”. Pesquisas em vários outros países chegaram a conclusões semelhantes.
Um dos pontos mais importantes, na minha opinião, é a transmissão de valores éticos e cívicos, difíceis de encontrar na rua. Pior: a presença de pai e/ou mãe com frequência não é suficiente porque eles seguem os ditames da Lei de Gerson, de “se dar bem”. Há mais uma agravante, um parâmetro mais amplo, o crescimento do consumismo e a crescente identificação da felicidade com o uso e propriedade de bens materiais, a felicidade através das coisas e não através das pessoas, nem através da alma.
Podemos, até certo ponto, reduzir a criminalidade fortalecendo as instituições protetoras: família, escola, religião sendo as principais. É muito mais barato e evita o crime, o sangue, a dor. A punição e o isolamento podem ser necessários, mas são muito menos desejáveis e eficazes.
Mas a grande reforma, muito mais ampla, de que o Brasil precisa é de valores, é a redescoberta da ética, a substituição de coisas por gente, da cobiça pelo amor.

GLÁUCIO SOARES      IESP-UERJ

[1] Vários artigos, inclusive alguns publicados no The Journal of Research in Crime and Delinquency, chegaram a essa conclusão.

[2] “Children from single-parent families are more likely to have behavioral problems because they tend to lack economic security and adequate time with parentes”. Single-Parent Families Cause Juvenile Crime (From Juvenile Crime: Opposing Viewpoints, pgs. 62-66, 1997, A E Sadler, ed.

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