A FLAUTA MÁGICA: DE MOZART A BERGMAN

A ópera esotérica se apresenta como a última obra-prima completa de Mozart. Encanta e instiga, há mais de 200 anos, todos que se deixam arrebatar. E adquire novo gesto na poética cinematográfica de Ingmar Bergman. As linguagens que se convergem na magnificência da arte. PUBLICADO EM ARTES E IDEIAS POR LARISSA PAES.
       Sendo uma das últimas obras concebidas por Mozart (a última obra foi Missa de Réquiem, deixada inacabada, em 1791, mas com premissas para a sua conclusão pelo seu pupilo Franz Sussmayr), A Flauta Mágica é inscrita por estórias de extrema relevância para o engendramento da atmosfera esotérica. Em meados do século XVIII, na Europa, a maioria dos ilustres personagens do campo artístico e intelectual eram membros da Maçonaria (sociedade secular que preza, em suma, pela elevação espiritual por meio, dentre outras vertentes que a permeia, pelos ensinamentos do rei Salomão. No começo, até a eclosão em Londres; onde emergiu outra fase, a Maçonaria era associada ao ofício de 'pedreiro' e afins. Sendo quase unânime o vinculo comerciário; evidenciado nas lojas com especificidades maçônicas essenciais, arraigada, em parte, por doutrinas alquímicas). Amadeus Mozart ingressa categoricamente nessa sociedade em 1784 (com 27 anos), mas tendo sua sutil gênese nesa ordem desde os 11 anos, por causa, em geral, do convívio com pessoas conectadas à sociedade secreta.
      A liturgia reversa da fraternidade maçonica perpassou as obras de Mozart desde a infância, mas de forma mais consciente quando foi forjado Aprendiz (1784). Quando concebeu a mais difusa e aclamada de suas óperas, A Flauta Mágica, já era Mestre maçônico. A ópera conhecida como ''ópera maçõnica'' apresenta os princípios maçons mais básicos, processo de iniciação maçônica e a ancestral sabedoria sussurrando seus segredos sutilmente na música e no libreto (texto intrínseco à ópera). Apesar da pretensão espiritual embutida, a ópera, à época, articulou com um público pouco sociável com essa pretensão.Ópera classificada como ‘’singspiel’’ (estrato do gênero caracterizado, em suma, pela presença de diálogos falados). E no seu arcabouço ainda há a presença dos conceitos do Iluminismo (a racionalidade refutando a obscuridade ecoada pela Igreja, o conhecimento estagnado agora vindo à luz). O libreto criado pelo teatrólogo, comerciante e barítono Schikaneder (por ele dá oportunidade a Amadeus num período, financeiramente, cruel; já que era dono de um pequeno teatro, e pela ligação maçônica, se conheciam de longa data) foi bombardeado por críticas, pois, utilizando prerrogativas de contos de fadas, o texto mostrou um aspecto ‘’infantilizado’’ (no sentido depreciativo) e inferior à genialidade musical da ópera. ‘’Mais conhecimento é necessário para entender o valor deste libreto do que a zombar dele’’, disse o célebre escritor Goethe, indignado pela reverberação negativa do libreto. Entusiasta da obra, Goethe, assim, planejou realizar uma continuação da ópera, uma segunda parte, que ficou incompleta, pois desistiu de continuar.
     Sinopse da ópera: Um príncipe, Tamino, e um caçador de pássaros, Papageno, atendendo ao apelo de uma rainha, a Rainha da Noite, aceitam a missão de resgatar a princesa Pamina, que está sequestrada no castelo do temido Sarastro. Para cumpri-la, Tamino e Papageno recebem da Rainha da Noite, por intermédio de três de suas damas, um carrilhão e uma flauta mágica, bem como, a ajuda de três espíritos, para guia-los. Revelações e reviravoltas recheiam a obra. Os personagens mais significativos e emblemáticos são: a Rainha da Noite e Sarastro. A Rainha associada à obscuridade da ‘’Idade das Trevas’’. Ela encarna as ‘’desvirtudes’’ que são renegadas pela simbologia maçônica. Apresenta-se, assim, contrapondo a miséria espiritual, Sarastro como um ‘’sumo sacerdote’’, ensejando tempos de benevolência.Como disse o historiador Luiz Roberto Lopes: ‘’A Flauta Mágica expõe e defende questões de ideias bem ao gosto dos iluministas. Ela apresenta elevados sentimentos humanos traduzidos num clima de beleza. Enfim, é a obra dos altos ideais se impondo às sombras, é o evangelho de uma religião muito particular de Mozart, impregnada do humanismo confiante e da felicidade como aurora promissora no horizonte. ’’
      Na casa de espetáculo Royal Opera (Estocolmo), no ano de 1930, Ingmar Bergman (1918 - 2007) assiste a ópera A Flauta Mágica. O fascínio do pequeno Bergman vai circunscrever sua criação cinematográfica; no sentido da música erudita em si. A consagração da paixão de Bergman por música é evocada no filme A Flauta Mágica. Na década de 60, o homem do cinema vislumbrou intensamente encenar A Flauta Mágica. Apesar de alguns percalços (maioria relacionados ao fator administrativo) fazendo fissura no desejo altivo de Bergman, a materialização veio em 1975, numa produção feita para a televisão sueca. Porém, em 1966, no filme A Hora do Lobo (espécie, em suma, de um ‘ensaio’ perturbador sobre o sofrimento humano), o cineasta apresentou uma parte da ópera A Flauta Mágica; utilizando um teatro de marionetes.
Como disse Ingmar: ‘’Por um breve instante o sofrimento é aliviado. É quando representam A Flauta Mágica. A música proporciona-lhes alguns momentos de paz’’
       Afirmando o que a música representa em sua arte: um interlúdio de contemplação onde a beleza metafísica aconchega o ser humano, harmonizando-o. Evidenciando isso sutilmente em muitos de seus filmes, como em O Silêncio (1962).Em meados de 1974, quando Ingmar estava prestes a iniciar a pré-elaboração do argumento do filme Face a Face (estrelado pela Liv Ullman), eis que chegam ao fim as filmagens de A Flauta Mágica. Bergman registra isso na sua agenda de trabalho:‘’As filmagens de A Flauta Mágica estão concluídas. Foi um período extraordinário de minha vida. A proximidade e satisfação diária da música! De que dedicação e ternura fui alvo!’’
Bergman quis ser fiel à montagem original da ópera de Mozart, ou seja, realizá-lo num teatro barroco, com toda a articulação própria desse espaço. Assim, a construção do filme é uma espécie de ‘’teatro filmado’’, com plateia e afins. Como um retorno à infância; já que assistiu a ópera por esse período, Ingmar explode isso quando centraliza a câmera, por vezes, no rosto de uma criança esboçando sua reação ao espetáculo. Um fator, dentre muitos, interessantes desse filme é o público, pois se mostra não elitista – como é comum no caso de óperas -, mas sortido, mostrando o alcance da obra e seu aspecto popular.O cosmo dessa produção é onírico, fantástico e incrivelmente solar, feliz; já que, conhecendo a filmografia de Ingmar, isso é um aspecto dissonante; não mostrando perspectivas existenciais perigosas e pungentes. A crítica a esse filme está na não fidelidade à língua originaria, pois a ópera não é encenada em língua alemã, mas na língua sueca. O filme ganhou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira pela Academia Britânica de Cinema e Televisão.
A Flauta Mágica possibilitou uma comunhão definitiva e genuína de Bergman e Mozart.




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