Os Tempos Estão Mudando (FORA TEMER)

Bob Dylan recebeu o Nobel de literatura “por ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção americana”. Muitos criticaram a Academia Sueca. É difícil avaliar um Nobel, mas vale a pena analisar os argumentos usados para criticar a escolha. São uma oportunidade única de entender ideias e preconceitos que permeiam a cultura contemporânea. 1) O primeiro argumento é que um Nobel de literatura não deveria ser concedido a um músico. Não se trata de um argumento a respeito da obra de Dylan, mas de um juízo a respeito do grupo daqueles a que o prêmio se destina. Ora, a literatura é uma arte ao alcance de qualquer um. Na conhecida definição do poeta Ezra Pound, “literatura é linguagem carregada de significado”. Dylan trabalhou a vida inteira com palavras e sons, matérias-primas da poesia. Sua obra vem sendo estudada há décadas pelas qualidades literárias. Ele foi indicado ao Nobel pela primeira vez em 1996. Sempre se considerou mais poeta que músico. O fato de também ser um músico popular de sucesso não pode ser um empecilho a que receba o prêmio. 2) O segundo argumento é que o prêmio abre um precedente. A Academia se preocupou em filiar Dylan a uma tradição que começa em cantores épicos como Homero, atravessa os trovadores medievais, como Arnaut Daniel, e chega ao cancioneiro popular em vários países. A versão séria desse argumento sustenta que poesia e música são artes que se separaram há centenas de anos e hoje habitam universos separados. Não faria sentido, portanto, escolher um cantor popular. Por que Dylan e não Leonard Cohen? Por que apenas agora a Academia acordou para os músicos? Que dizer do francês Georges Brassens, descendente ainda mais direto dos menestréis? De Jacques Brel? Noel Rosa ou Chico Buarque? Toda canção popular deverá agora ser considerada poesia? O problema com esse argumento é que erros do passado não devem impedir acertos no futuro. Todo letrista é também poeta. Nem todo letrista é bom poeta. Se a Academia deixou até hoje de considerar no prêmio bons poetas que atuam no universo do cancioneiro popular, o erro não está na escolha de Dylan. Esteve em aferrar-se até hoje a uma concepção limitada de poesia. Para o público a quem toda poesia se destina, tal divisão sempre foi artificial. 3) O terceiro argumento sustenta que, num momento em que cai o número de leitores de livros no mundo todo, seria papel da academia escolher alguém que ajudasse a ampliá-lo. Se era hora de conceder um Nobel a um americano, por que não Philip Roth ou Don DeLillo, romancistas de sucesso cuja obra pode exercer força sobre a quantidade de leitores? Roth e DeLillo são provavelmente dois dos maiores romancistas vivos, não há dúvida. A lista de “injustiçados” é longa – a começar pelos dois maiores escritores do século XX, James Joyce e Marcel Proust. Mas tal argumento padece de um problema básico: sempre haverá, numa escala subjetiva, este ou aquele nome que parecerá “merecer mais”. Só que não é papel do Nobel fazer Justiça a um panteão literário imaginário, muito menos estancar a queda no número de leitores. Trata-se apenas de um prêmio. É aposta segura que Roth e DeLillo não deixarão de ser lidos, assim como Dylan continuará a ser popular. Qualquer um seria uma escolha justificável, mas – como é da natureza das escolhas – apenas um poderia ganhar, para infelicidade daqueles que preferem outros. 4) O único argumento que poderia ser usado para criticar o prêmio está no mérito da obra de Dylan. Poesias dele são hoje objeto de intenso estudo nas universidades. Seus versos já foram comparados aos de John Keats e William Butler Yeats (em cuja poesia também “havia um grande elemento de canção”, nas palavras do comitê que lhe concedeu o Nobel em 1923). A poesia de Dylan tem aquilo que Pound qualificava como “significado concentrado ao último grau”? Ou é apenas uma coleção de chavões pastosos de protesto adolescente, como quase tudo o que toca no rádio? Essa é, no fundo, a discussão que interessa. Não tenho competência para avaliar a resposta. Acadêmicos como Gordon Ball ou Christopher Ricks, que sempre defenderam o Nobel para Dylan, afirmam que, sim, é poesia de qualidade. A justificativa parece estar nos versos do próprio Dylan: Venham senadores, congressistas Por favor escutem o chamado Não fiquem parados no vão da porta Não congestionem o corredor Pois aquele que se machuca Será aquele que nos impediu Há uma batalha lá fora E está rugindo E logo irá balançar suas janelas E fazer ruir suas paredes Pois os tempos estão mudando The Times They Are A-Changin'(By: BOB DYlan) #Gostei do velho Dylan ter ganho, mas eu gostaria muito que tivesse sido o nosso Chico Buarque de Holanda)

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